A Grande Obra
sobre o Saci-Pererê, hologramas, e bigodes
Estava esses dias preparando uma aula sobre o Rumpelstiltskin e notei que, numa cena, ele pula com uma perna só. Não só o Rumpelstiltskin, dos irmãos gorduchos lá da Bavária, mas também o nosso Saci-Pererê, com quem tem em comum outras duas características:
Um nome “engraçadinho”, musical, que faz a língua “tropeçar” na boca;
A detestável ocupação de ser um tipo de “elfo doméstico”, uma criatura do mundo intermediário que vive ou ajudando (no caso do Rumpelstiltskin) ou atrapalhando (no caso do Saci) os afazeres da casa.
O fato de andarem com uma perna só evoca, claro, outras imagens: a do Robin Goodfellow, ou o Pendurado, do Tarot. O que me faz pensar, depois, no trope do ferimento na coxa, ou do Herói Manco. Andar sem as duas pernas (ou, pelo menos, com uma das pernas machucada) é simular um andar de bêbado, esta figura ubíqua que além de assediar meninas em bares também serve como símbolo místico em diversas tradições. René Girard falou alguma coisa sobre tropeçar, ou fazer tropeçar, ou um caralho assim (eu não sei, eu não li direito, estava muito bêbado).
Enfim, o fato é que existe um grande manancial de imagens que precisam ser descompactadas em seu sentido simbólico e é exatamente isso que eu estou fazendo no meu Seminário Online de Simbólica. Para quem quiser um exemplo de como eu trabalho, aqui está um módulo avulso sobre o Simbolismo dos Contos de Fadas, que você compra e ganha, de brinde, um gnomo invisível. São 7 aulas que falam sobre a morfologia dos contos de fadas, o mundus imaginalis, a fauna do mundo sutil, e três análises longas de três contos tradicionais.
De todos defeitos do homem moderno, o pior deles é não me dar mais dinheiro.
Essa semana o Richard Dawkins (um cientista que parece um réptil) foi massacrado pela opinião pública porque cometeu o erro de desnudar o seu coração no twitter. Aparentemente ele mostrou umas conversas indecentes com a tal da Claudia (a versão travesti do Claude) e sugeriu que o robôzinho talvez tivesse uma consciência. De repente todo mundo está apontando o dedo e dando risadas igual o Nelson dos Simpsons (mas quase ninguém tem rizz do Nelson dos Simpsons, mind you).
Ora, eu achei que este episódio até redimiu um pouco o Richard Dawkins para mim. Eu achei fofo e ingênuo, como um vovôzinho que acredita em tudo o que aparece na Globo News. Ele é só um intelectual público, ele não tem a obrigação de saber definir o que é consciência. Vocês, que estão rindo do Richard Dawkins, algum dia ficarão velhos, e o neto de vocês vai mostrar um holograma que mostra uma mulher peituda tocando bateria, e vocês também pensarão uau! a tecnologia transcendeu aquilo que eu achava impossível.
A melhor regra para julgar a fisionomia humana é pensar: se esse sujeito fosse um personagem da Pixar, ele seria o quê?
Se a resposta for: um brinquedo, então ele é pedófilo. Se a resposta for: um animal, vai depender do animal (uma raposa, por exemplo, representa um ser humano detestável; uma vaca representa um sujeito benévolo, mas burrinho; uma arara representa a pior das criações divinas). Se a reposta for: um idoso, a pessoa é velha. E assim por diante.
A expressão “no fio do bigode” existe porque até o século XIX era comum que cavalheiros, de comum acordo, selassem seus contratos com um beijo delicioso e molhado, assim entremeando os fios de seus bigodes.
Se você chegou até aqui, dê uma olhadinha num outro projeto salisbúrico: o grupo de mentoria “A Grande Obra”, que está com uma promoção absurda até a próxima segunda.


Pior que vi recentemente dois relatos de pessoas fazendo tratos com saci para que eles os ajudassem em coisas que não eram ruins. Mas, claro, nas duas narrativas se falava do castigo do saci caso o humano não fizesse o prometido (que era deixar um fumo de rolo, algo assim, pra ele de tempos em tempos). Num dos casos, por um descuido que nem foi da pessoa, mas da mulher dele que não foi levar o fumo pro saci, o monstrinho colocou-o de cabeça pra baixo, tirou-lhe a calça e cuspiu no cu dele, matando-o (não sabia que cuspe de saci era ácido).